Quando Enzo fez dois anos e meio comecei o desfralde, ainda não tínhamos o diagnóstico fechado, mas ele já havia perdido algumas habilidades importantes e, claramente, sua dificuldade de comunicação aumentava a cada dia.
Meu coração de mãe sabia que ele ainda não estava pronto para o desfralde, não dava nenhum indício de se incomodar com a fralda ou mesmo mencionava suas necessidades, mas a minha ansiedade materna, ao ver todos os amiguinhos dele sem fraldas, foi maior que o meu bom senso.
Fiz tudo que os livros, as psicólogas e as pedagogas sugerem. Conversei com ele, disse que já estava virando um rapazinho e que rapazes não usam fraldas, iria usar cuecas, como o papai! O levei ao shopping para comprar as cuecas, dei 3 opções para que ele escolhesse uma, e ele contando os respingos de tinta no rejunte do piso da loja, sem o menor interesse, claro, aquilo tudo não fazia o menor sentido na cabecinha dele. Compramos um pinico, um adaptador de assento de vaso sanitário, super divertido, cheio de desenhos de peixes, e tentava fazer com que ele participasse de todo o processo, mas parecia que ele nem estava ali.
Mesmo assim, fui teimosa, e comecei. Affff, que arrependimento!
Foi um desastre!!!! Passei dois mêses seguidos limpando o chão, lavando panos de chão, lavando roupas, cuecas que não acabavam mais. Era o tempo de torcer o pano que acabei de lavar, voltava para a sala e tinha xixi na sala toda de novo. Ele fazia e se jogava no xixi, como se estivesse nadando. Ao final do dia estava completamente exausta, decepcionada, frustrada, sem paciência, esgotada…
Conversei com a psicóloga da escola e, óbvio, chegamos à conclusão que não estava funcionando, eu mandava 5 trocas de roupa para a escola e voltavam, quase sempre, todas sujas. Decidimos que retroceder era a melhor solução, voltaríamos com a fralda e esperaríamos uns 2 meses, até fazer a segunda tentativa.
Na segunda tentativa, começamos com a fralda de cueca, assim poderíamos treiná-lo ir ao banheiro, sem o transtorno de trocá-lo a cada meia hora, já que, graças a Deus, Enzo é uma criança que bebe muita água. Mas também não vimos grandes avanços, ele continuava não se importando em ficar sujo, e não esboçava nenhuma forma de comunicação indicando que queria usar o banheiro.
Veio o diagnóstico!!!! Nossa, como me senti culpada de tantas e tantas vezes que fiquei muito brava, depois de limpar o chão 14 vezes. Senti uma culpa que apertava o peito, me ajoelhei na frente dele e disse:
– Filho, descobri que quem estava com dificuldades para termos sucesso em tirarmos a sua fralda era eu, e não você. A mamãe não percebeu que você precisava de uma ajuda diferente. Eu quero que você me perdoe por ter ficado brava tantas vezes, mesmo que você ainda não entenda o que estou dizendo, me perdoa! Mamãe te ama muito e vamos conseguir, juntos, sempre. Estou aqui para te ajudar.
Dei um abraço bem apertado no meu filho, em meio à lágrimas, e mais uma vez pedi à Deus que me ajudasse.
Me reuni com alguns profissionais e juntos traçamos um plano de ação. Inicialmente , levávamos o Enzo ao banheiro a cada 20 minutos, o tempo foi aumentando gradativamente e hoje, cronometramos, e o levamos ao banheiro a cada 1 hora. Fazemos o elogio reforçador quando ele faz xixi no vaso, e quando faz cocô no vaso, parece gol do Atlético Mineiro, em final de campeonato, contra o Cruzeiro (rsrs, pelo menos aqui em casa).
Atualmente, depois de mais de 1 ano da primeira tentativa, tivemos avanços enormes, mas ainda não chegamos ao desfralde completo. Enzo ainda dorme de cueca de fralda, ainda existem alguns escapes de xixi, ainda faz mais cocô na cueca que no vaso, quando saímos para algum lugar longe, ou consulta médica demorada, ou festas infantis ( que ele fica dentro do brinquedão quase o tempo inteiro), ainda uso a cueca de fralda. Assim evita transtornos para ele e para mim.
Ou seja, paciência é fundamental! Paciência, amor, paciência, amor e mais paciência e um pouco mais de amor. Não existe fórmula secreta, não existe tempo certo, não existe fazer comparações com o filho do outro, o que existe, é conhecer uma realidade, de que a criança com TEA tem dificuldade em se comunicar, dificuldades sensoriais e que precisa de ajuda. Ela não faz xixi no chão por desobediência, por ser mal educada, para testar o limite dos pais… Nada disso.
Ela faz, porque não consegue dizer:
– mamãe, quero fazer xixi!
– papai, preciso fazer côco.
Não se deve criar expectativas de que isso acontecerá da noite para o dia, devemos deixar a frustração de lado ( claro que ela existe, somo seres humanos antes de sermos mães) e lidar de forma prática e funcional. E amar, sempre!
Tolerância, paciência e amor!