Todos nós temos um poder no olhar. Pessoas se apaixonam depois de um simples olhar correspondido, grandes amizades nascem de um olhar afetivo, e ainda existem aqueles relacionamentos, onde o olhar é mais usado do que as próprias palavras, para se comunicarem.
O primeiro olhar do meu filho para mim foi mágico, aqueles pequenos olhinhos pretinhos brilhando, me derreti toda. Quando ele parou de “olhar”, após a “poda” doeu, doeu, doeu… E diariamente fazemos muitos estímulos para aumentar seu contato visual.
O olhar é muito importante, pode machucar ou pode acalentar. Pode agredir ou tranquilizar. E eu já senti as duas formas desse olhar, a forma boa e a forma ruim.
Quanto mais velha a criança com transtorno do espectro autista (TEA) fica, mais evidente é a diferença dela para as crianças neurotipicas (normais) da sua idade. Eu já estou psicologicamente preparada para lidar com essa diferença e munida de todas as informações necessárias para tal. Mas preciso confessar que, embora eu achasse que não iria me afetar, não me preparei o suficiente para suportar os olhares.
Não me preparei para lidar com os olhares que machucam, os olhares que agridem, que julgam, os olhares que buscam uma deficiência física para justificar um comportamento inadequado, os olhares que esperam de mim uma postura em relação a uma ação errada, que eu sei que desencadeará numa crise pior. Os olhares que me dizem que sou incompentente, superprotetora, permissiva, neurótica. Mas sem dúvida, os que mais me doem, são os olhares que dizem que meu filho é inconveniente, inadequado, mal educado, desobediente, não é bem vindo. Esse dói lá no fundo da alma.
Infelizmente a sensação que tenho é que os olhares ternos, afetuosos, acolhedores, de pessoas estranhas, estão cada vez mais escassos. As pessoas tem um pré conceito de que os pais não sabem educar. Eu sei que existem muuuitas crianças vítimas de uma má educação sim, e já falei disso em outro post, mas nem sempre uma criança se jogando no chão, transtornada, é consequência de falta de limites.
Eu convido a todos, a fazerem um exercício de fecharem os olhos, e se colocarem em meu lugar nas seguintes situações: O seu filho com autismo, gritando, em crise causada por bombardeio de estímulos num shopping, ou tendo um comportamento inadequado numa festa de aniversário do amiguinho. Você tenta contornar a situação da melhor maneira, e quando as coisas começam a se acalmar, já consegue enxergar o que está a seu redor, olha em busca de amor, mas o que vê são os olhares que ferem, até tenta encontrar algum olhar que esteja disposto a ajudar, mas infelizmente, só estão os que julgam.
Se você sentiu um nó na garganta, um aperto no peito, uma vontade de colocar seu filho numa redoma, uma vontade de ganhar um abraço amigo, de chorar no ombro de alguém, de ver um rosto familiar, uma tristeza, o estômago revirando, vergonha, e incapacidade, conseguiu se colocar no meu lugar.
E eu desejo, do fundo do meu coração, que ao abrir seus olhos, depois dessa “experiência”, seu olhar seja transformado. Que muitos olhares de amor nasçam, que a compaixão seja SEMPRE maior que o julgamento, que os olhares que edificam e acolhem sejam infinitamente maiores, em quantidade, que os olhares que ferem.
“Filhinho, não amemos de palavra, nem de boca, mas em ação e em verdade…” 1 Joao 3:18.